E quem quiser contribuir, mandando inclusive textos, é só me contactar. Comentários, é claro, serão bem-vindos - quem quiser polemizar, discutir, brigar, também pode: só não prometo continuar no tema, pois o tempo nem sempre existe, nem tudo vale a pena mergulhar fundo e os assuntos são muitos.

Ah! Para quem não me conhece, posso me definir como um ATIVISTA CULTURAL BRASILEIRO – adotando definição dada pela jornalista Beatriz Wagner (obrigado, Bea!) durante o Brazil Film Festival de Sydney, em outubro de 2009. Sou de São Paulo, capital, mas moro em Sydney, Austrália desde o final de 1980. Além de ser ou gostar de ser um ativista cultural, ou como parte disso, faço música, cinema, escrevo, trabalho como guia de turismo multilíngüe (em português, inglês, espanhol e italiano) viajando por toda a Austrália, faço traduções, dou aulas de violão, português e inglês, entre outras coisas – e sou formado em Arquitetura e Urbanismo pelo Mackenzie (SP) sem ter exercido a profissão.

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domingo, abril 01, 2012

Assista a um featurette do novo filme de Cao Hamburger, XINGU:



No vídeo elenco e equipe falam sobre a criação do projeto e o processo de filmagens.

O filme escrito por Hamburger e Elena Soares, narra a saga dos irmãos, idealizadores da reserva do Parque Indígena do Xingu, primeira terra indígena homologada pelo governo federal em 1961. João Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat interpretam, respectivamente, os irmãos Claudio, Orlando e Leonardo Villas-Bôas.

O longa conta com a participação de cerca de 250 índios, selecionados no próprio Parque do Xingu. A produção da O2 tem lançamento em 6 de abril. Antes disso, participou do Festival de Berlim, em fevereiro.

domingo, outubro 24, 2010

A TORTURA QUE MORA AO NOSSO LADO



texto de José Aparecido Miguel no Jornal do Brasil, 15/10/2010

Quase uma semana depois, não me saem da cabeça as imagens e os depoimentos do filme “Perdão, Mister Fiel”, sobre a tortura e a morte do metalúrgico Manoel Fiel Filho, em janeiro de 1976, durante o governo do general Ernesto Geisel, no período da ditadura militar no Brasil (1964-1985).

“Perdão, Mister Fiel” é um documentário do jornalista, escritor e cineasta Jorge Oliveira, que teve pré-estreia no Memorial da Resistência, domingo, em São Paulo. O Memorial da Resistência ocupa o antigo prédio do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS), onde Manoel Fiel Filho foi torturado e morto, a exemplo de, meses antes, Vladimir Herzog, sacrifícios humanos que impulsionaram uma mudança política no país, rumo à democracia que hoje vivemos. DEOPS, aliás, também foi conhecido como DOPS (sem referência ao E de estadual).

O filme, um longa-metragem de 90 minutos, mostra a influência dos Estados Unidos na manutenção das ditaduras da época na América Latina, e traz o depoimento do ex-agente do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna), Marival Chaves, que revela minuciosamente como eram mortos e esquartejados os presos no DOPS, comandado pelo delegado Sérgio Fleury, e no DOI-CODI. Para lembrar, o DOI-CODI era um órgão de “inteligência” e repressão subordinado ao Exército brasileiro.

“Perdão, Mister Fiel”, na minha opinião, pode ser a mola propulsora da retomada de debate que leve ao julgamento bandidos-torturadores, travestidos de agentes de segurança, e sobre a prática de tortura na atualidade. As cenas do filme colocam em questão a Lei da Anistia.

Depois do filme, ao lado do ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, Audálio Dantas, o cineasta Jorge Oliveira lembrou a importância do combate, também, à tortura que acontece diariamente nas cadeias e distritos policiais do país.

Audálio Dantas, que teve destacada participação na resistência à ditadura, especialmente no período do assassinato de Vladimir Herzog, comentou que o brasileiro vive a ameaça de sofrer tortura todos os dias, a partir, por exemplo, de um simples acidente de trânsito, de um simples desentendimento verbal com um policial.

No filme, o irmão do presidente Lula, Frei Chico, José Ferreira da Silva, também torturado pela ditadura, toca no mesmo tema.

Estranhamente, pelo que soube, até hoje nenhuma autoridade do governo foi ouvir o ex-agente do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna), Marival Chaves, que pediu demissão de sua função em 1985, e vive no Espírito Santo, embora o documentário já seja público e tenha oito prêmios em festivais de cinema, como o de Brasília. (Depois de ter postado este comentário, li no Jornal do Brasil que o secretário de Direitos Humanos do governo Lula, Paulo Vannuchi, disse que cabe ao Judiciário analisar o caso.)

O depoimento do ex-agente - "analista de informações" - dá nomes de responsáveis pela tortura na época, que incluiu barbaramente aplicação de injeção, para matar cavalos, em ativistas políticos.

O filme é revelador. O hoje ministro da Comunicação Social do governo Lula, Franklin Martins, estava marcado para morrer. Desviou-se dos torturadores nas ruas de São Paulo.

Na pré-estreia em São Paulo, Audálio Dantas propôs - e o auditório aceitou, por unanimidade - que “Perdão, Mister Fiel” receba o prêmio “hors concours” Vladimir Herzog de Direitos Humanos, que será entregue dia 25 de outubro.

A apresentação do filme, no Memorial da Resistência, fez parte do encerramento da exposição do brilhante designer gráfico Elifas Andreato, autor de centenas de capas de jornais e revistas com o tema da ditadura militar.

Diga não à tortura, onde ela ocorra.

domingo, setembro 19, 2010

"Cinco vezes favela, agora por nós mesmos" - cinema brasileiro com olhar lírico e engajado


Foto de divulgação


Por Ramon Mello



Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos
reúne em cinco episódios, histórias concebidas e realizadas por jovens cineastas, moradores de favelas cariocas. O longa-metragem tem como referência o Cinco vezes favela de 1962, em que cinco jovens universitários de classe média – Miguel Borges, Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias, Leon Hirszman e Cacá Diegues – fizeram um filme em que o tema central era as favelas do Rio. O filme, que entra em cartaz nesta sexta, 26 de agosto, foi produzido por Diegues e Renata Almeida Magalhães.

Desta vez, as 946 comunidades do Rio de Janeiro estão representadas através do olhar dos próprios moradores da comunidade, com Manaíra Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra. Os jovens cineastas escolhidos começaram a trabalhar em organizações culturais como Cufa (Cidade de Deus), Nós do Morro (Vidigal), AfroReggae (Parada de Lucas) e Observatório das Favelas (Complexo da Maré).

Há quatro anos, mais de 200 jovens participaram de oficinas de preparação técnica, com professores como Fernando Meirelles, Ruy Guerra, Walter Salles, Dib Lutfi, Daniel Filho, entre outros cineastas consagrados, e começaram a escrever argumentos e a desenvolver coletivamente os roteiros – 84 jovens foram selecionados para trabalhar nas gravações. A aula inaugural foi com o mestre, diretor e acadêmico Nelson Pereira dos Santos. E o elenco foi preparado pela também atriz Camilla Amado.



> Leia entrevista com Cacá Diegues sobre o projeto

> Confira entrevista com Fernando Meirelles, que participou das oficinas com os jovens



Lirismo em episódios

Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos, que ganhou sete prêmios no Festival de Paulínia de 2010, incluindo o de Melhor Filme para o júri oficial e para o júri popular, tem diferentes histórias que dialogam mais com a comédia do que com o drama. Talvez por isso, a sensação “happy end” incomode os espectadores. O lirismo está presente até mesmo em episódios com desfecho triste.

O primeiro deles, “Fonte de renda”, de Manaíra Carneiro, faz uma crônica da vida de um jovem universitário, Maicon (Silvio Guindane), morador de comunidade, que consegue ingressar na faculdade, mas tem dificuldades para manter os estudos. O ator sustenta o personagem com veracidade, mas o roteiro direciona para um desfecho moral e clichê.

“Arroz com feijão”, de Rodrigo Felha e Cacau Amaral, aborda o drama e a aventura do menino Wesley (Juan Paiva) e seu melhor amigo, Orelha (Pablo Vinicius) para presentear o pai (Flávio Bauraqui) com uma refeição diferente do arroz e feijão de todo dia. Os atores e o roteiro são excelentes. No entanto, há momentos desnecessários, como a explicação do pai para o fato de não conseguir comer frango, que beiram ao melodrama.

“Concerto para violino”, de Luciano Vidigal, é o episódio que mais se aproxima da estética “pobreza & violência”, excessivamente utilizada em filmes como Cidade de Deus e Tropa de elite. No entanto, trata-se da história mais bem executada, com atuações impecáveis de Samuel de Assis (o PM Ademir), Feijão (o chefe do tráfico, Tiziu), e Thiago Martins (Jota, rival de Tiziu).

"Deixa voar" (foto acima), de Cadu Barcellos, é o mais criativo e lírico, onde o território demarcado por facções rivais do tráfico de drogas é o que estabelece o limite das relações sociais. Com um roteiro bem construído, o espectador acompanha a história dos meninos que soltam suas pipas na laje dos casebres para romper com o cerceamento da liberdade.

“Acende a luz”, de Luciana Bezerra, o último episódio do filme, retrata um conto baseado em experiência dos moradores, quando ficaram sem luz na véspera do Natal de 2008. O ator Marcio Vitto, que interpreta o técnico de luz encarregado de resolver o problema da comunidade, faz seu trabalho com maestria. Com típicos personagens da classe média, a história pode confundir-se com um trecho de uma novela das oito. A narrativa final destaca o espírito coletivo da comunidade, que norteia o projeto em si.

Com erros ou acertos, o fato é que este projeto permite que os moradores de comunidades, cineastas, contem suas próprias histórias. Seja pela busca de linguagem ou pela necessidade de retratar a realidade através de um olhar único, o filme Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos é imprescindível para quem se interessa pelo cinema brasileiro.

Assista o trailer: